Língua de Sinais: uma Identidade visual

12-04-2013 19:09

 

                                                             

Quando afirmamos que uma pessoa “fala” determinada língua, logo aderimos à tendência de associarmos esta fala com a produção de sons e com a escuta deles. Entretanto, se pensarmos assim, como ficam as pessoas surdas? Podem falar ou não?

Este é um questionamento que, não se reduzindo a meramente pensar formas de comunicação, nos leva a refletir sobre importância de se ter uma língua, falar esta língua e nela ser sujeito social ativo.

A língua, diferente do que muitos pensam, ao invés de ser somente um conjunto de códigos que, aprendidos, tem seu fim na comunicação entre as pessoas que os conhecem e utilizam, é ainda mais a manifestação de um sujeito, de suas idéias, de seus conceitos e de sua história, de suas experiências de vida, intenções e desejos, de sua capacidade de intervir no mundo em que faz parte e absorvê-lo. Enfim, a língua é o sujeito se dizendo, é a manifestação do ser pessoa.

Costurando todas as realidades acima, podemos ir adiante e entender que, sendo tão vasto e rico o espaço que a língua ocupa na vida do ser humano, o Surdo, como toda pessoa, a transborda de forma diferente, de uma maneira que lhe é própria e significativa. E esta forma representa o seu jeito Surdo de ser no mundo e de se construir enquanto sujeito a partir das experiências visuais, forma que também é língua com todos os elementos gramaticais e lingüísticos necessários: a língua de sinais.

“Na verdade, a língua não se transmite, ela dura e perdura sob a forma de um processo evolutivo contínuo. Os indivíduos penetram na corrente da comunicação verbal; ou melhor, somente quando mergulham nesta corrente é que sua consciência desperta e começa a operar.” (Bakhtin, 1990 in GOLDFELD, 1997)

A língua de sinais é estruturada em cada país por meio da cultura surda nacional. Sendo assim, temos a língua de sinais americana, sueca, italiana, e, em nosso caso, a brasileira. Podemos citá-la como Língua de Sinais Brasileira – LSB, pelo fato de ser primeiramente uma língua, como todas as demais, em uma modalidade visual-espacial (Sinais) e que é falada pela comunidade surda brasileira, ou ainda citá-la como Língua Brasileira de Sinais – Libras, como tradicionalmente vem sendo chamada pela comunidade surda brasileira e como foi mencionada na Lei Federal 10.436/2002 que a reconhece oficialmente.

Falar uma língua é expressar uma identidade e afirmar, assim, uma cultura.

Como caminho para afirmação de uma identidade integrada, na medida do possível, como para qualquer ser humano, a língua de sinais se mostra como possibilidade completa e sustentável (Goldfeld, 1997; Moura, 2000 e Quadros, 1997) na qual o surdo se identifica enquanto sujeito ativo com potencial social e político, sujeito “Surdo”, com uma identidade própria, não marcada pela perda, mas pelo potencial. Na língua de sinais desde as mais simples conversas de amigos, suas sutilezas e malicias, discussões filosóficas e emocionais, até os conteúdos intensamente acadêmicos e tecnológicos, podem ser partilhados. Essa partilha natural entre os Surdos cria um laço de sustentação da identidade:

Encontrar um grupo com esses valores (que coloca a vida acima de tudo) é encontrar vida. Num grupo assim, pode-se supor, cada indivíduo reconhece no outro um ser humano e é assim reconhecido por ele … Ter uma identidade humana é ser identificado e identificar-se como humano” (CIAMPA, 1990 in MOURA, 2000)

Ao se encontrarem em uma identidade fortalecida na língua de sinais, os Surdos se manifestam afirmando uma cultura própria, a Cultura Surda, que revela a tomada de posse de responsabilidades e deveres, tornando visível a luta por uma cidadania que respeite as diferenças, tanto as suas como as dos outros.

Portanto, o Surdo “fala”, fala na língua de sinais, e, por este motivo, incentivar a aquisição natural desta língua entre as crianças surdas, seu uso e difusão em todos os espaços sociais, garantir a presença do intérprete de língua de sinais em espaços educacionais, culturais, empresariais, de serviços públicos, incluindo ainda as mídias televisivas, é muito mais que criar um recurso de comunicação, é reconhecer o surdo como cidadão e estabelecer um caminho acessível para a manifestação de uma identidade cultural.

Odirlei Faria

Coordenador dos Intérpretes

Regional Sul 1

Pastoral dos Surdos

 

Referências

GOLDFELD, Marcia. A Criança Surda: linguagem e cognição numa perspectiva sócio-interacionista. SãoPaulo: Plexus, 1997.

MOURA, Maria Cecília de. O Surdo: caminhos para uma nova identidade. Rio de Janeiro: Editora Revinter, 2000.

QUADROS, Ronice M. de; KARNOPP, Lodenir B. Língua de sinais brasileira: estudos lingüísticos. Porto Alegre: Artmed, 2004.