Relato de um surdo - Suelli Ramalho Segala

09-11-2011 21:54

“O surdo ouve com os olhos e fala com as mãos”

 

Suelli Ramalho Segala

Professora Intérprete de Libras

Atriz (fundadora Cia. Arte e Silêncio).

 

Ola amigos!

    Sou surda de nascença! Meus pais e meu irmão todos de minha família, tios e tias, primos e primos são surdos. Na verdade, os únicos ouvintes em minha casa são meu filho, meu marido e minha cadelinha.

    Convivo entre esses dois mundos: o mundo do ouvinte e o do surdo, e as suas diferenças me fascinam.

    Vejam como: Quando um ouvinte faz uma lista de compras do supermercado simplesmente vão escrevendo as palavras que fluem livremente em seus pensamentos: arroz, feijão, molho de tomate etc. O surdo, ao escrever a lista (quando este sabe escrever), pensa primeiro no arroz, não na palavra, mas na embalagem com as cores, marca tamanho etc., realmente projeta em sua mente a imagem.

    Em cada um deles, vê as suas formas, tamanhos, cores e tipos. O mais interessante é que na maioria das vezes, não sabe nem mesmo o nome do produto. Vou mais além, um ouvinte coloca, por exemplo, um artigo para estes produtos, assim seria: o arroz, o feijão, os sabonetes, uma lata de molho de tomate etc. Como o surdo poderia colocar estes artigos na imagem dos produtos criada em sua mente? Impossível, não é mesmo?

    Não quero dizer com isso que não existe gramática na Língua de Sinais. Pelo contrario, ela existe, assim como em outras línguas, cheia de regras e exceções; um pouco dela será abordada nesse projeto.